Analistas, teóricos e opinadores já teceram suas teses e previsões sobre 2023 e o futuro de curto prazo para a economia global. Muitas dessas opiniões foram reforçadas pelo último relatório do Banco Mundial: Perspectivas Econômicas Globais, sobre a “desaceleração acentuada e duradoura que atingirá fortemente os países em desenvolvimento”.

Desde sua publicação até aqui, tivemos movimentações políticas e econômicas aqui no Brasil, movimentos econômicos dos EUA para conter a inflação, inclinações e debates sobre temas para garantir a sustentabilidade econômica para o futuro do planeta no último Fórum Econômico Mundial em Davos. Vimos ainda iniciativas dos formuladores das políticas monetárias elevando as taxas de juros, aumentando o risco de uma recessão induzida pela geopolítica global.

Enfim, movimentos e variáveis que impactam em uma questão prática para as organizações em todo o mundo: como reduzir os gatilhos de risco, garantindo a sobrevivência nesse período marcado pelo mercado amplamente estressado, tendo que ceder seu apetite pelo crescimento desenfreado sem aumentar o desemprego, o que confirmaria o aceite de uma recessão?

Essa talvez seja a pergunta que muitos podem estar tentando responder nesse exato momento. Alguns partem para os chamados layoffs, numa tentativa impaciente de reduzir os custos operacionais e controlar o balanço entre receita e despesas. Podemos compreender essa decisão tendo em vista a redução das despesas e o aumento das margens de lucratividade.

Inevitavelmente a empresa vai passar por uma revisão das oportunidades de aumento de eficiência de onde e como estão sendo empregados os recursos financeiros e qual o seu retorno. Mas seria isso suficiente ou apenas uma resposta ao sintoma apresentado? Existe uma causa raiz que seja maior e até mesmo crônica que acaba levando ao “inchaço operacional”?

Como disse o autor e consultor Roger L. Martin, “no mundo dos negócios é muito comum que o uso do termo Planejamento Estratégico, mesmo que contenha a palavra estratégico, muitas vezes não tem nada de estratégia, não passando de um conjunto de atividades que as organizações declaram que irão fazer.”

Complementando a visão crítica de Roger: quando transformam esse processo decisório em um problema que pode ser resolvido com ferramentas testadas e comuns no mercado, vem o medo do desconhecido. Tomar uma decisão sobre qual estratégia seguir, implicando em abrir mão de outras possibilidades, faz com que executivos recorram a um caminho mais seguro, com uma suposta solução confortável que soa muito bem e faz as organizações felizes.

Isso quase sempre significa passar semanas ou até meses preparando um plano abrangente de como a organização  investirá nos ativos e capacidades existentes e novos para atingir uma meta. Isso é tangibilizado, muitas vezes num plano suportado por planilhas detalhadas que projetam custos e receitas no futuro  (existe até um mercado paralelo de planilhas e cursos). Tudo para que ao  final do processo, todos sintam muito menos medo com um documento chamado Planejamento Estratégico em mãos e para “culpar” caso algo dê errado.

Em suma, uma grande armadilha que muitas organizações caem, é confundir ter um planejamento que faz muito sentido e é chamado de estratégico com ter uma estratégia clara e bem estruturada para sobreviver ao cenário que se apresenta. Afinal, muitas vezes os conselhos e investidores estão mais interessados nas metas de curto prazo descritas nos planos e que podem ser supervisionadas de perto, do que nas metas de longo prazo que são o foco da estratégia consistente e que exige uma visão e tomada de risco sobre o futuro. 

E você, tem clareza onde se encontra? Existem sinais que essa armadilha esteja presente na sua organização? 

Respire…

Buscando caminhos possíveis para sobreviver ao cenário caótico sobre o qual falamos em nosso último artigo (colocar link do artigo), existem remédios para esse Diagnóstico desconfortável de assimilar como verdadeiro: é preciso adotar uma elaboração de estratégias que naturalize a experiência de sentir a angústia sobre a incerteza do futuro. Isso envolve garantir que o processo de elaboração da Estratégia esteja em conformidade com essas 3 importantes premissas:

1. Crie Ritmo, Harmonia e Melodia: a estratégia como música para os ouvidos.

Uma declaração da estratégia da organização é fundamental para a construção de uma jornada de sucesso perene. É preciso ser simples de compreender e constante com um ritmo cadenciado de reforços para que com o tempo torne-se natural, e faça parte da cultura inerente da organização. E assim criar harmonia com as iniciativas e decisões que serão tomadas a partir da estratégia, formando assim uma melodia memorável. Para isso, desenvolve suas competências de improviso e fluidez, como se a “sua música” nos convidasse a ser participantes ativos ao invés de apenas ouvintes passivos. Foi essa capacidade de improviso e adaptação às mudanças ao longo da história que nos permitiu sobreviver como espécie. 

2. Provoque Experiências Existenciais.

Independente do produto ou serviço que você ofereça para seus clientes, ele será uma interface para experiências sensoriais daquela pessoa. Tais experiências podem ser classificadas em 3 dimensões de qualidade: negativas, neutras ou positivas, e outras 2 dimensões de atitude: intencionais e acidentais. Para cada uma dessas classificações existem maneiras de atuar de maneira estratégica. Por isso, ao elaborar sua Estratégia, dedique suas energias em escolher bem os caminhos para reconhecer com clareza as características específicas dos clientes de onde você irá agir (familiarize-se com o contexto), e construa uma proposta de valor que seja verdadeiramente atrativa que te permita ter algum aspecto que diferencie substancialmente dos demais competidores. 

3. Mude a lógica e torne-a transparente.

Já não há espaço para estratégias que não deixem expostas suas intenções, a cultura vigente é o imperativo da hiperexposição, as esferas dos aspectos públicos e privados se confundem, já não há distanciamento, nas redes sociais as pessoas físicas e jurídicas deliberadamente escancaram suas relações. O review, a reclamação, o comentário, a foto do produto com defeito, o vídeo do serviço mal prestado, tudo está aí, como dado e informação, passível da interpretação aberta. Ao elaborar sua Estratégia, não pode ser diferente, é preciso ser transparente com a lógica e intencionalidade que estão afetando as tomadas de decisão da sua organização. 

Além dessas 3 premissas, é importante salientar que  as organizações que estruturarem seus alicerces de maneira a utilizar o “smart design” agindo de forma preventiva, porém com coragem de quebrar alguns paradigmas e comportamentos que limitam atitudes verdadeiramente estratégicas, terão mais chances de sobreviver às incertezas, complexidades e angustiantes mudanças observadas nas dinâmicas econômicas ao longa da história que segue sendo criada. Afinal, como diz Annie Duke em seu livro, Pensar em apostas: decidindo com inteligência quando não se tem todos os fatos: “Envolver nossos braços em torno da incerteza e dar-lhe um grande abraço nos ajudará a nos tornarmos melhores tomadores de decisão”. 

Inspirações